<![CDATA[Ricardo Ferrer Creative Design - Artigos]]>Fri, 04 Dec 2015 13:51:37 -0800Weebly<![CDATA[O jogo que queremos jogar]]>Thu, 19 Nov 2015 15:00:48 GMThttp://ricardoferrer.weebly.com/artigos/o-jogo-que-queremos-jogar“O jogo puro e autêntico é uma das principais bases da civilização”
Johan Huizinga - Homo Ludens
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Dois jovens caminham pelas ruas de Nairóbi com uma caixa de papelão reciclado colorida em mãos, entram em uma escola aonde dezenas de outros jovens os aguardam. A caixa é aberta revelando dezenas de pequenas peças coloridas, cartas e um tabuleiro de um visual fascinante.  Encantados e curiosos, os jovens aguardam as instruções dos guardiões daquele artefato, já iniciados naquela experiência. Eles irão jogar uma partida de um jogo que fala sobre prevenção da Aids, vivenciarão nele um desafio com descobertas incríveis, reflexões às vezes dolorosas, farão laços de amizade e companheirismo e certamente não serão as mesmas pessoas ao final daquela partida.

Em Estocolmo, uma garota conectada na rede entra em contato com jovens de Quebec, da Cidade do Cabo, de Istambul e de Recife. Estão jogando como parceiros um simulador cujo o objetivo é criar uma cidade ideal.

Um jogo de cartas sobre prevenção de acidentes é jogado por operários em um estaleiro em Seul e nos escritórios de uma fundação em Genebra, um jogo personalizado faz parte da estratégia de captação de recursos de um grande projeto humanitário.

Todos estas cenas hipotéticas são possibilidades reais (algumas cenas similares a estas certamente estão ocorrendo por ai) que tendem cada mais fazer parte das campanhas de organizações ao redor do globo. Este otimismo todo está caucado na percepção de processos em andamento e de pequenos sinais que já se mostram por ai e que vale a pena nos atentarmos.

Ao se falar de jogos hoje em dia, basicamente nos remeteremos ao boom do mercado de jogos eletrônicos que hoje representam uma parcela importantíssima do mercado de entretenimento; por outro lado, lembraremos dos polêmicos debates em torno do realismo imersivo destas ferramentas fomentando alienação e violência, assuntos nada divertidos. Não podemos nos furtar a estes debates mas neste artigo me atenho à perspectiva do jogo como ferramenta de desenvolvimento pessoal, organizacional e comunitário em curso ou que potencialmente ainda pode se manifestar no futuro.

Se olharmos nas origens dos jogos veremos que eles são derivados de rituais primitivos que em face a ocupação do ambiente, ganharam representações em tabuleiros e pecinhas. Antes de ser mero entretenimento, jogos foram criados com o propósito religioso e de formação social por povos diversos como os mesopotâmios, os egípcios, africanos, gregos, esquimós.

Jogos têm em seu DNA uma vocação multicultural de desenvolvimento humano (o legado pré moderno) que integrados ao fascínio das regras elaboradas e dos desafios de conquistas (o legado da modernidade) e incorporados aos valores globocêntricos de objetivos humanitários, de bem comum, de respeito à diversidade, integração dos povos e ecologia (o legado pós-moderno), apontam para uma expressão pós-pós-moderna (por falta de termo melhor!) que se diferencia justamente por fazer  esta integração transformadora.

Alguns sinais dão força a esta imagem: em abril de 2009 o Estadão publicou uma reportagem especial no caderno de sustentabilidade, sobre jogos voltado para questões de sustentabilidade. Nela vemos desde adaptações conceitualmente acanhadas (Banco Imobiliário Sustentável) até ao elaborado jogo do Negócio Sustentável de Glória Pereira, que irá integrar a grade acadêmica da faculdade de Economia da USP! Nesta reportagem há uma série de links de outras iniciativas, na maioria jogos eletrônicos online como o Food Force, programa Alimentar Mundial da ONU e o Honoloko da Agência Europeia de Ambiente. No mundo dos videogames ainda há de ressaltar a presença da Games for Changes, um entidade bastante ativa que promove e divulga jogos eletrônicos que tenham propostas de mudanças sociais.

Se os videogames representam hoje o mainstream com maior visibilidade, os jogos sociais de tabuleiro e cartas ressurgem com força dentro desta nova atribuição dos jogos, não apenas por uma nostalgia passageira e sim porquê possuem características intrínsecas que não podem ser substituídas pela tecnologia eletrônica: o relacionamento direto compartilhado, o contato físico, o sentido lúdico de manipulação táctil de diversos elementos; todas estas características do tipo High Touch (termo do futurista John Naisbitt para falar daquilo que o High Tech não pode substituir). Sem contar que ainda há muitos lugares cujo o acesso tecnológico é limitado e cujo desenvolvimento pessoal e organizacional são prioridades humanitárias. Os jogos à moda antiga cabem como uma luva sobretudo nestes casos.

Tudo isto sem levar em conta o fato de que as pessoas estão cada vez mais aptas ao entendimento e relacionamento contextual típico daqueles oferecidos pelos jogos. Eles são motivadores de desenvolvimento, sobretudo nas gerações mais jovens, porquê são maleáveis, abertos a improvisos e variações e oferecem ao seus participantes reflexões sobre os conjuntos de regras e valores contidos naquela experiência.

Este hoje otimismo mal disfarçado tende a se tornar uma realidade pouco a pouco e, ai então, quando falarmos de jogos, todo mundo saberá que o assunto é sério e ao mesmo tempo muito divertido.

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<![CDATA[A Jornada Fractal do HerĂ³i Integral]]>Thu, 26 Sep 2013 15:12:53 GMThttp://ricardoferrer.weebly.com/artigos/-a-jornada-fractal-do-heri-integralOs heróis têm sido uma fonte de inspiração e um espelho para o self em desenvolvimento desde as sociedades primitivas de tradição oral e, ao que parece, estão longe de sair da moda. Mas afinal, que tipo de herói melhor espelha os homens e mulheres contemporâneos? E como a sua jornada pode nos inspirar em nossos desafios?

 “O único mito sobre o qual vale a pena pensar no futuro imediato é aquele que fala do planeta, não sobre ‘esta cidade’ ou ‘este povo’ mas sobre o planeta todo e todos que vivem nele. Essa é a minha idéia principal sobre qual será o futuro mito. E o seu tema será exatamente o mesmo de todos os mitos: a maturação do indivíduo, o caminho gradual e pedagógico a seguir desde a dependência até a vida adulta, até a maturidade e depois até a saída. E como fazer isso. E então, como relacionar esta sociedade com o mundo da natureza e do cosmos. É sobre isto que todos os mitos falam e é disso que o próximo mito deverá falar. Mas a sociedade sobre a qual ele falará é a sociedade planetária e até que isto aconteça, nós não temos nada.” - Joseph Campbell
Joseph Campbell faleceu em 1987 cerca de um ano após dizer estas palavras em sua conversa com Bill Moyers na série “O Poder do Mito”. Ele se foi sem ter o privilégio de testemunhar o surgimento da internet como fenômeno social global e sem ter assistido a superprodução Matrix, que entrou em cartaz em 1999 nas telas de cinema do mundo todo. Se ele estivesse vivo, seria plausível imaginá-lo na poltrona do cinema dizendo animadamente: “Era sobre isso que eu falava!”.

Independente de qual seria a opinião de Joseph Campbell sobre o filme, Matrix seguiu à risca a estrutura da Jornada do Herói em uma linguagem contemporânea e, muito mais que isso, ampliou para um contexto abarcador de toda a humanidade. Os diálogos de Matrix servem à sua história enquanto falam muitas vezes explicitamente sobre o que é implícito na maioria das histórias, daquilo que é possível se apreender dos símbolos presentes nos mitos.

Durante esta transição de milênio é cada vez mais evidente os colossais desafios globais que enfrentamos como membros da humanidade, é cada vez mais difícil não perceber os efeitos dos grandes problemas em nossas vidas: seja o aquecimento global, a degradação da natureza por ação do homem, seja a fome crônica em muitos países, os movimentos migratórios e a intolerância, as crises econômicas transnacionais, o que evidenciam a importância de histórias que falem sobre heróis globais.

Porém, este tipo de desafio global não são os únicos que temos que transpor; ainda somos animais que, como Hércules, temos que lutar para direcionar nossos impulsos mais instintivos ao mesmo tempo que lutamos pela sobrevivência, somos também seres sociais e temos que desempenhar uma série de papéis: como pais temos responsabilidades no cuidado dos filhos, temos que ser bons profissionais, bons cidadãos, manter nossas casas limpas e arrumadas, temos que cuidar da nossa saúde e bem-estar, temos que nos entender com os nossos parceiros afetivos ao mesmo tempo que nutrimos e expressamos a nossa própria natureza sexual, temos que aprender e desenvolver novos ofícios o tempo todo. Enfim, vivemos uma incontável série de situações de vida ao mesmo tempo, o que por um instante faz parecer que Neo ou Hércules tiveram uma vida fácil.

O Herói dos nossos tempos não apenas deve lidar com desafios globais como também deverá fazê-lo ao mesmo tempo em que enfrenta seus desafios mais particulares e os seus desafios compartilhados como membro de uma família ou grupo; ele é o tempo todo desafiado a integrar seus diversos mundos em um todo coerente e harmônico, sempre em evolução. O herói do século XXI percorre uma jornada fractal, multidimensional e multinivelada, ele deve transitar por contextos cada vez mais profundos e complexos, assim como Dom Cobb, o invasor de sonhos do filme A Origem (Inception, Chris Nolan, 2010) que resolvia desafios intrincados movendo-se por sonhos dentro de outros sonhos, dentro de outros sonhos...

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